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Rui escreve no blog

Já tinham saudades de o Rui escrever no blog,certo?
Aqui vai o que ele escreveu:

Wong to Walk
Eles dançavam de fraque. Elas dançavam usando vestidos coloridos, longos e comprimidos numa tentativa de imitar aquilo que em tempos viram em videoclips.
Lantejoulas voavam, havia lutas de copos perto do buffet e houve quem quase caísse à piscina. Mas o importante é que dançavam.
Fiquemos por ai. Dançavam e acreditavam que naquela noite, as músicas que ouviam eram suficientes para sustentá-los, para preencher vazios e para aproximá-los de uma qualquer felicidade ilusória que se dobrava, que se metia em caixas e que tinha como empregador o Sr. Chen.

Os casamentos têm este efeito nas pessoas. Quem nunca almejou a felicidade fica morto por apanha-la e possuí-la (como se de um bem se tratasse). E aqueles que já a desejavam e que até, se calhar, a tinham no facebook, analisam o que têm e vêem que provavelmente aquilo que existe, jamais poderá ser vestido de branco.

Há quem se una em casamentos. Há quem encontre o amor da vida delas debaixo de uma cadeira a ter uma conversa demasiado intíma com o soalho. Ou o amor daquele momento.

Porque os amores são isso, coisas de momento. Podem ser momentos que duram 25 anos ou 3 horas. Mas são isso. Há sempre outro, noutra sala, noutro lugar, a falar com um tipo de soalho diferente.

Naquele dia, os senhores que dançavam de fraque beijaram quem não deviam. Tocaram em quem não podiam e repetiram a sobremesa quando não era suposto.
Por sua vez, as meninas que dançavam com vestidos de cerimónia e penas na cabeça deixaram-se seduzir e depois barricaram-se na casa de banho. Onde contemplaram a enormidade do que tinham feito e arrancaram cabelos à procura da pílula que àquela hora ainda não tinha feito cinquenta anos.
Alguns senhores e algumas senhoras procuraram dentro de outro nicho de mercado e fixaram-se, porque era preciso ser feliz.

Era preciso entrar nesta frequência aparentemente extravagante, intoxicante e profundamente estável do amor deste outro senhor e desta outra senhora vestida de branco.

E por isso dançou-se demais, bebeu-se demais e chateou-se a mulher de borracha que vivia dentro de uma caixa.

Wong, a contorcionista - também chamada de felicidade nos trópicos - alinhou, mas não ficou muito tempo.
Acho que ninguém a levou a passear - toda a gente conhece o síndrome de falta de passeio das contorcionistas - mas saiu da caixa e ficou por ali, até porque gostava de manga e a mãe sempre lhe dissera que nunca se diz não a um sortido de frutas.
Alinhou. Sim, por umas horas alinhou. Fizeram-na dançar o "crazy little thing called love". Beberam uns gin tónicos com ela e sei de quem a tenha visto a cantar word by word o New York da Alicia Keys.
Quando chegaram as Non Stop, Wong achou por bem retornar à caixa.
Até porque tinha coisas para arrumar.

Elas diziam para toda a gente sonhar. Acho que foi em vão. O modo onírico estava on há muito tempo. E isso, por aquela noite bastava.

Quanto à Wong, na caixa ficou. À espera de uma ocasião propícia para largar o circo, assentar com algum rapaz e ter freaks pequeninos de olhos em bico que não precisam sequer de tentar, para tocar com a língua no cotovelo.

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